Semana passada tive o privilégio de almoçar com todos os chefs de cozinha que vieram ao Brasil para o evento “Semana Mesa SP” da revista Prazeres da Mesa em parceria com o SENAC. Foi um almoço incrível lá no Fogo de Chão da Avenida Santo Amaro (um dos meus grandes clientes).
Para melhorar ainda mais, sentei ao lado do grande e divertido Frédéric Baú da Valrhona, e a frente de Ferran Adriá do El Bulli e Christian Escribá da Escribá.
Entre várias rodadas de caipirinha e muita costela de boi, discutimos bastante alguns assuntos que estão muito em alta no nosso país e no mundo da gastronomia.
Interessante foi perceber que a visão de todos é muito parecida com a nossa e se inclina totalmente ao tão desvalorizado Brasil. Quer dizer.... desvalorizado por nós. Lembro-me bem, quando há mais de 15 anos, decidi pela confeitaria, mais especificamente pelos ingredientes Brasileiros. Ouvi de muitos o “apoio moral” de.... vai se dar mal!! Obrigado a todos pela força; me deu mais vontade de continuar!
Na conversa com os grandes do mundo, percebi que o que vários Chefs do nosso país falaram por anos, só agora está sendo aceito pelos nativos da terra Brasilis pelo fato de termos uma chancela internacional; ou seja: agora é bacana por que os gringos falaram que é.
Vocês lembram que o Brasileiro só começou a dar valor ao cupuaçu depois que o Japão registrou o nome? E a rapadura, que ficou sob o domínio dos alemães por mais de 15 anos e só este ano ganhamos a ação na OMC? Sem esquecer da pimenta rosa plantada na Bahia, que era vendida para a Europa e depois importávamos como iguaria por um preço exorbitante? Se deixarmos, logo estaremos pagando por ser Brasileiros, pois estaremos registrados em algum outro país.
Forma de rapadura do século XIX lá da minha loja
Estamos tão acostumados com as coisas ao nosso redor, que deixamos de prestar atenção. Apenas olhamos e não vemos. Sabe aquelas receitas que sua avó costumava fazer e você acha que não serve mais por ser antiga? Pois é..... olhe para elas com outros olhos que tudo muda,antes que outros o façam. Toda a vez que viajo para fora do Brasil para dar aulas, levo algo da época da minha infância e é sempre um sucesso.
Pois é. Agora todo mundo vai querer vir aqui e tirar uma casquinha. Não tenho nada contra quem é de fora, mas vocês devem lembrar que nos outros países, em primeiro lugar vem quem é de lá e só depois os forasteiros. Vá para qualquer lugar do mundo e veja se eles dão preferência para os estrangeiros ou para quem é da terra.
Só para ilustrar o que estou falando, abaixo vai uma foto do Ferran Adrià comendo um creme de papaia. Sabe qual foi o veredicto? Ele amou a textura e o sabor, apesar de não entender por que tinha cassis que não é Brasileiro. Isso mesmo. Ele achou que por ser algo tão “nosso”, deveria ter outro licor. Apoio com todas as forças..... que tal um licor de jabuticaba? Só para deixar marcado no tempo. Aposto que se o Ferran fizer um creme de papaia desconstruído etc etc, vai ter um monte de “chef estrela” copiando para vender em seus restaurantes, pois vai passar a ser incrível.
Ferran mandando um creme de papaia
A moral desta historia, para mim, é a de que devemos respeitar a todos, indistintamente, pois até o mais ignorante em algum assunto, pode vislumbrar algo que você, que está olhando todos os dias não vê. Ouça tudo o que lhe falam e utilize o que lhe convém, pois uma palavra pode ser suficiente para salvar o seu dia. Não tenha raiva dos estrangeiros, respeite-os e absorva as técnicas e conhecimentos que eles possam lhe acrescentar. Porém, aprenda a dar valor, antes de tudo, ao que é seu por direito, para evitar pagar caro para comprar rapadura “made in Germany”.
2 comentários:
Flavio, Gostei muito da matéria e acho que você atingiu um ponto importante: os recursos naturais genuinamente brasileiros são formidáveis, pena que pouco valorizados. Com certeza o problema é com a mentalidade de muitos “formadores de opinião”. Para começar a mudar é preciso saturar a mídia com declarações iguais às do Adria com relação ao cassis e de outros expoentes da gastronomia mundial que certamente pensam da mesma maneira sobre outros ingredientes aqui desprezados. Meu desejo é que você lidere esse movimento com o engajamento de outros profissionais que comunguem com a mesma idéia.
Concordo plenamente com você. Só acho que o maior problema é o fato de que nós, nativos do Brasil, não temos força, pois o que vem de fora é sempre "melhor".
Já me dedico a isso a mais de 15 anos. Mas não é fácil quando o foie gras tem em qualquer esquina e o nosso Bacuri não tem em lugar nenhum. É uma questão de mercado. Os comerciantes vendem o que o público procura.
Divulgue a idéia como um todo para que todos nós venhamos a ganhar com isso.
Parabéns e um Abraço
Flavio
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