Muitas vezes por semana, recebo ligações de pessoas à procura de confeiteiros para seus restaurantes, bufês, hotéis, confeitarias etc. Outras vezes recebo currículos de pessoas “super interessadas” em trabalhar como confeiteiros a qualquer custo.
Ok! Matemática fácil não é? Basta juntar todos e ficamos felizes no mercado, trabalhando e criando delicias para agradar aos olhos e ao coração. Certo? MENTIRA!!!! Para quem não sabe, o mercado é muito diferente dos filmes de Walt Disney.
Em primeiro lugar, para deixar claro, a confeitaria é uma só, independente do lugar em que o profissional trabalhe. A pâtisserie ou confeitaria fina, como alguns insistem em chamar a nossa profissão para tentar diferenciar profissionais “bons e chiques” dos chamados “de padaria” não existe. Pâtisserie é um substantivo em língua Francesa que, pasmem, quer dizer CONFEITARIA... ou seja: quem trabalha fazendo doces e sobremesas é confeiteiro aqui no Brasil e pâtissier na França e pastelero na Espanha etc. Confeitaria fina é a mesma coisa. Somos todos confeiteiros e pronto. O que importa é o que você sabe fazer e com que qualidade.
Por ser a gastronomia uma moda que trabalha muito com o ego do profissional, acredito que muitos cozinheiros não querem dividir os aplausos conosco e, simplesmente deixam de lado a boa finalização de uma refeição. Devemos lembrar que, uma boa sobremesa ao final da refeição, alegra o comensal e transforma caras fechadas em sorrisos; ao passo que quando a sobremesa não é boa, tudo o que veio antes passa a ser ruim ou mais ou menos.
Só para fazer um rápido comentário sobre o assunto; já ouvi muitos falarem que chef é chef e confeiteiro é confeiteiro...ledo engano! Chef é um cargo dentro de uma cozinha e que pode ser exercido por um cozinheiro na praça de salgados e por um confeiteiro na praça de doces. Os dois têm a mesma força e trabalham em conjunto para o principal, que é a satisfação do cliente e não de seus egos. Basta lembrar que nos grandes e melhores restaurantes do mundo, existem cardápios separados para salgados e sobremesas, com os nomes dos Chefs no rodapé, para que todos saibam que a refeição não foi obra de uma só pessoa. Aqui no Brasil acho que nunca vi.
Infelizmente, faculdades ajudam bastante a piorar a situação. Ninguém vende um curso dizendo que é de cozinheiro ou de confeiteiro. Quem é que vai aceitar pagar R$1.500,00 por mês para não sair com o diploma de Chef? As faculdades vendem um cargo que não podem dar para valorizar o que cobram.
Voltando aos confeiteiros e à vida, digamos o seguinte: quando você nasce, não sabe andar, falar, ler, correr e assim vai. Você precisa primeiro aprender a engatinhar para depois andar e correr. Isso leva anos e requer sacrifício e experiência. Na cozinha é a mesma coisa. Você aprende o básico e depois, com o passar de muitos anos, desenvolve a técnica e a rapidez na elaboração das receitas. Mais para frente, depois de aprender muito e suar bastante, começa a criar suas próprias combinações. A moral disso é a de que você deve esperar e trabalhar com calma e tranqüilidade. Nada vem depressa e de graça. Dê tempo ao tempo, pois às vezes a ansiedade atrapalha muito e acaba com seus sonhos.
Tenha confiança no que sabe e certeza da qualidade de seu trabalho. Não adianta nada colocar no seu currículo que trabalhou com “A” ou “B” e na hora do “vamos ver”, não conseguir fazer direito. Às vezes recebo CV’s tão impressionantes que tenho vontade de pedir, eu, um emprego à pessoa. Pessoas tão novas, 19, 20 anos, com tanta experiência e tendo trabalhado com tantos nomes famosos pelo mundo afora, que não entendo o que estão fazendo aqui, pedindo emprego a mim, pobre mortal. Nesses casos, peço ao candidato durante a entrevista, que vá a cozinha e prepare uma massa folhada ou outra coisa não tão complicada. Em vários anos não tive nenhum que aceitou. As desculpas são sempre as mesmas: “não vim preparado”, “não trouxe minha roupa” e outras mais hilárias ainda. Como se você tivesse que se preparar para andar e falar, ou precisasse de sua roupa mágica para lhe dar as super habilidades necessárias.
Outro dia, recebi a ligação de um amigo que fez uma entrevista com um candidato que disse ter trabalhado comigo. Procurei nos arquivos, descobri que ele (a) tinha estagiado comigo por 30 dias, quase dois anos atrás. Perguntei a ele se já tinha feito um teste e ele disse que não precisaria se eu falasse que o(a) profissional era bom (boa). Eu disse para o meu amigo aplicar o teste independente da minha resposta, pois capacidade é capacidade. No final, a pessoa passou por mentirosa na frente de um grande chef e teve que admitir que o meu nome em letras garrafais em seu CV era para impressionar e não serviria de nada se não demonstrasse habilidade para o cargo. Moral da história..... a vaga continua aberta.
Lembrem que ninguém sai operando corações logo no primeiro dia depois de receber o diploma. Ninguém projeta um prédio no dia seguinte à festa de formatura. Tempo e experiência são tudo na vida e conhecimento é algo que ninguém pode tirar de você, mas também não pode enfiar na sua cabeça.
Tempo, dedicação, humildade, amor, trabalho árduo e paciência são algumas das palavras chaves para um grande profissional. Dê tempo ao tempo, dedique-se, seja humilde, ame o que faz, trabalhe com afinco e tenha paciência, as coisas acontecem aos poucos.
Para quem leu tudo isso, entendeu e ainda assim está “super interessado” em ser confeiteiro....por favor currículos para sodoces@sodoces.com.br!
Boa sorte, sucesso e até a próxima.
22 comentários:
Chef,
Cada vez que leio ou ouço suas palavras, fico mais feliz de ter tido a oportunidade de ter participado de uma aula sua!
Como falamos antes, ser confeiteiro leva anos e anos, como toda profissão. E precisamos perseverar, dedicar, ouvir, estudar, aplicar...e muito mais para sermos um bom profissional!
Agora, mesmo as pessoas trabalhando com chefs maravilhosos, quem quer ser confeiteiro e não estagiar com você!?!?!?
Abro seu site sempre e fico babando em todas as fotos sempre...quase sinto o sabor!!rsrs!
Sucesso sempre!
docesbjs
É Flávio, vc tem toda razão...parte da culpa acho que é da faculdade, da mídia...até eu que sou simples micro empresária dona de um restaurante tenho recebido cv´s de pessoas formadas, cheias de sonhos, querendo uma vaga...mas no meu caso, só tenho funcionárias sem formação, mas "braçais", que aprenderam muito na prática (funciona bem!). Chef virou sinonimo de glamour...e sabemos que a profissão exige muito mais do que isso! Rotina, disciplina, horário puxado, muita louça a lavar...Será que esta juventude está preparada?Afinal quem tem condições de pagar uma faculdade de R$1500,00 as vezes não foi acostumada a arrumar a própria cama!
Pois é. Trabalho sempre foi e sempre será trabalho. Por isso mesmo é que o melhor é amar o que faz ao invés de se preocupar com o glamour que ele pode te trazer.
A minha maior felicidade é ver alguém comendo um doce meu e babando. Não precisa sair na mídia!!!
Chefão,
Quem falou que "chef é chef e confeiteiro é confeiteiro" foi o senhor Alex Atala, em uma entrevista à revista trip, se me lembro bem.
E se o chefe brasileiro mais reconhecido internacionalmente não respeita confeitaria fica ainda mais difícil prosseguir na profissão com seriedade.
Em São Paulo, o único restaurante que conheço que tem a assinatura do chefe confeiteiro no cardápio é o Arturito, da argentina Paola Carosella.
E concordo contigo. Uma boa sobremesa corrige falhas do jantar servido e uma ruim faz você esquecer tudo. A última impressão é a que fica!
Por fim, não fique tanto tempo sem escrever!
Abração meu caro!
Julinho
Houve sim uma entrevista em que o Alex falou isso; foi na Prazeres da mesa.
De qualquer forma ele não foi o primeiro e nem tampouco será o último.
Acho que a falta de respeito pela nossa profissão ainda atrapalha muito.
Costumo dizer que quando você está com dor de barriga não vai ao dentista.... cada um na sua especialidade e pronto.
Vamos começar a pensar no cliente em primeiro lugar; afinal é ele que paga as nossas contas.
Quando der vou conhecer o Arturito.
Boa tarde chef,
ao tempo, tempo!
Para aprender é necessário fazer da humildade um exercicio diário; há de se lembrar que a paciência também deve ser exercitada todos os dias. Tenho, algumas vezes, a triste impressão de que nos falta coragem para praticar esses exercícios, mas ainda confio em uma vontade maior...
Já ensinei(na minha primeira e eterna profissão) pequenas e grandes crianças, e quando pensava que nada mais seria surpresa, eis que mais uma vez aprendia que as pessoas, na maioria das vezes, nos surpreendem de uma maneira boa aos olhos e coração.
Sei que qualquer dia desses, você vai encontrar alguém que tope ir fazer o seu teste... e ai, sua surpressa vai ser tão boa como quando você vê alguém que come de olhos fechados suas pequenas preciosidades.
Até!
É verdade Cinthia..... tempo ao tempo.
As vezes é bem difícil esperar, mas não adianta ter pressa também. As coisas acontecem quando tem que acontecer e pronto.
Tenho certeza de que vou ter uma grata surpresa um dia destes.
Nunca deixei ou vou deixar de acreditar no ser humano.
Agradeço a força e espero poder vê-la, um dia, devorando algumas das minhas "preciosidades"... estarei espiando por trás da porta.
Sucesso sempre.
Chefão, que matéria bem escrita!!!Gostei muito.Quando será o próximo post? Setembro ou Outubro?
Abraço
Boas Aderbal; tudo bem?
Desta vez não vai demorar tanto.
De qualquer forma, o bacana é a surpresa e não a rotina.
abs
Chefão,
Fui lá no teu boteco hoje e tomei sorvete de graviola, manga e também o de banana! Bom pra cacete!
Fala aí Julinho;
Bom que você gostou.
O de banana ouro com amêndoas é super mesmo. O difícil é achar banana ouro a preço de banana. No litoral os caras querem cobrar R$40 por um cacho... dá para acreditar?
abs
Fantástico o texto! Pena que isso é geral, durante o restaurant week, 2 estágiários de cozinha simplesmente desapareceram do restaurante, é triste demais..
abração
Isso não vai mudar tão cedo.... uma pena. As pessoas ainda pensam que nossa profissão é diversão e não trabalho.
De qualquer forma, não pense que é só aquí. Na Europa e Estados Unidos etc é a mesma coisa. O glamour que as pessoas acham que temos está acabando com a cozinha.
Vamos nos movimentar em prol de boa comida e bons profissionais.
abs meu amigo
Flavio
Flavio, adorei a oportunidade de participar do seu curso de macarons. Vc é uma das poucas pessoas que consegue transmitir com clareza e simplicidade as informações necessárias sobre esta iguaria. Sempre tive a sensação de ser "praticamente impossível" de executar, mas ontem eu percebi que é possível e que são deliciosos. Vc tem o dom. Vc tem a energia boa e com todo o seu conhecimento agregado, só pode transformar seus doces em iguarias.
A textura, as cores, todo o processo físico, químico.....é uma alquimia.
Que continue trilhando o seu caminho com muito amor.
PARABÉNS e mais uma vez obrigada.
Um beijo Carol Prada
Bom dia Carolina;
Agradeço muito seus comentários e elogios e fico muito feliz que você tenha gostado e aproveitado.
Minha visão é bem simplista.... ensino a quem quer aprender e passo, sem medo, tudo o que viví nesses anos de profissão.
Não levamos nada desta vida e sim, deixamos alguma coisa..... uma semente ou uma árvore.
Tudo o que acontece na cozinha durante o curso é resultado da energia e vontade daqueles que lá estão; não é mérito meu.
Espero que você tenha muito sucesso e sorte no caminho que escolheu trilhar.
Um grande beijo e sucesso
Acabei de ler o que estava procurando. Adorei seu blog e palavras. Digamos, que acabei de nascer e busco aprender a engatinhar nessa área da confeitaria. Muito bom o seu texto, parabéns!
Olá Flávio,
Gostaria de comentar nesta postagem que não é recente, pois o que você escreveu abrange muito do que eu penso sobre ser um profissional, seja em qualquer profissão.
Fiz gastronomia e já enviei currículo para o sodoces@sodoces.com.br.
Ao contrário do que você escreveu não penso que mereço a vaga pois me formeï "chef" ou a quero a qualquer custo, estou enviando justamente porque quero buscar isto e acredito que a sua competência possa me ajudar. Eu quero desenvolver o possível talento, que com a minha restrita bagagem ainda não sei se tenho. Mas por acreditar e respeitar o seu trabalho acredito que posso descobrir junto com a sua equipe.
É isso.
Natália da Costa Sá
Boa Noite Flavio,estou passando pra dizer que admiro seu trabalho,e espero que um dia eu consiga ser amenos a metade do grande profissional que é..Mas eu queria também que você me tirasse uma duvida,eu assisti seu workshop de chocolate na Ana maria braga e achei muito interessante,porém queria saber se qual é o nome do material que parece um plástico que foi usado para fazer as decoração sem tirar o brilho do chocolate?
Aguardo a resposta..Agradeço deis de já..
Abraços
Samara
Oi Samara;
obrigado pelo seu comentario e elogios.
O material que usei prara fazer as decorações é uma folha de acetato ou fita de acetato.
abs
Adorei e li isso tudo, mas no momento não me interesso em mandar um CV. Mas quero te mandar os Parabéns adorei o que eu li e concordo que a ansiedade atrapalha profissional, tenho meus 21 anos e estou caminhando nesse mundo da gastronomia com muito pé no chão e entendendo de que eu entro na faculdade de Gastronomia para fazer um curso de Cozinheiro. E tenho no meu CV um outro curso que amei fazer e trabalhar no assunto que é Panificação que me despertou para o fantástico mundo da Confeitaria (esse eu ainda vou fazer um curso direito). Muito obrigado pelas informações e adorei ler (digo novamente) e vou acompanhar agora que achei vcs.
Fiquem com DEUS.
Oi Flavio!
Muitas pessoas que se formam em gastronomia não aprenderam o basico de casa, vão para a faculdade sem saber nda, por isso ficam devendo. Tive essa experiência, pois meu professor de um curso do senac era um chef (ainda jovem) e tinha dificuldade em fazer coisas simples. Por enquanto eu apenas possuo cursos auxiliares na área de culinária, e muita experiência própria hehe, tenho muito interesse, sempre pesquiso coisas na web e livros, buscando mais conhecimentos. Me aventuro fazendo bolos com decorações sempre criativas. Agora estou adorando fazer cupcakes, e vou testar o macarron, se acertar a receita te aviso.
Como diz minha mãe, para se fazer uma boa comida é preciso muita dedicação, paciência e amor!
Adorei o blog!
Sucesso.
Ana Helena
Na nossa profisão, porque temos uma, o verbo é perseverar. Nenhum dos meus "chefs" valorizava a confeitaria. Infelizmente.
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